Prédios tortos de Santos não precisam de intervenção estrutural no momento, diz prefeitura
Santos, SP, tem 65 prédios tortos na região da orla da praia A Tribuna Jornal A Secretaria de Obras e Edificações (Seobe) de Santos, no litoral de São Paul...
Santos, SP, tem 65 prédios tortos na região da orla da praia A Tribuna Jornal A Secretaria de Obras e Edificações (Seobe) de Santos, no litoral de São Paulo, informou que nenhum dos prédios tortos da orla da praia precisa de intervenção estrutural neste momento. O posicionamento responde a um requerimento apresentado pela Câmara Municipal. No documento enviado ao Legislativo, a Seobe explica que a conclusão foi baseada em laudos de análise estrutural elaborados por profissionais contratados pelos próprios condomínios. A prefeitura, porém, destaca que monitora periodicamente a necessidade de intervenções futuras. ✅Clique aqui para seguir o canal do g1 Santos no WhatsApp. A secretaria confirmou a existência de um levantamento que identifica os edifícios em desaprumo na cidade. A relação dos imóveis, no entanto, não foi divulgada para “não influenciar nas questões imobiliárias que possam trazer prejuízos”. Segundo a prefeitura, a legislação municipal obriga os proprietários e condomínios a realizarem vistorias preventivas. Eles devem emitir um laudo técnico sobre anomalias, características e causas, o que inclui eventuais desaprumos excessivos. E o financiamento para o reaprumo? O requerimento, apresentado pela Câmara, também questionou o andamento de um modelo inédito de financiamento no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) para permitir obras de reaprumo (veja abaixo). Em abril deste ano, uma proposta em estudo entre a Prefeitura de Santos, o BNDES e a Associação dos Condomínios dos Prédios Inclinados (Acopi) previa corrigir a inclinação dos edifícios. A ideia era que o banco liberasse crédito aos moradores dos 319 prédios afetados, com a prefeitura atuando como garantidora da dívida. Plano com novos estudos e financiamento pode corrigir prédios tortos em Santos Na ocasião, o prefeito de Santos, Rogério Santos (Republicanos), que está de licença médica para tratar um câncer, explicou que o BNDES ainda não tem um modelo de financiamento para áreas particulares por intermediação pública. “A gente deixou como 'tarefa' para o BNDES desenvolver essa modelagem de financiamento, ver como isso pode ser feito, porque é algo inédito. O modelo de engenharia já foi feito em Santos, mas como pode ser desenvolvido essa linha de financiamento para os condomínios, não”, afirmou à época. Sem definição Agora, na resposta ao requerimento sobre como ficará o financiamento, o Executivo informou ao g1 que não há qualquer pactuação, definição ou compromisso formal firmado até o momento. “Trata-se de um assunto que demanda análises criteriosas, diálogo institucional e observância dos princípios da legalidade, da responsabilidade fiscal e da segurança jurídica”, diz trecho da resposta da Secretaria de Governo (Segov). Prédios tortos na orla de Santos (SP) Silvio Luiz/A Tribuna Jornal A Segov pontuou ainda que o processo é conduzido com transparência e diálogo com os envolvidos. De acordo com a Seobe, como as informações sobre a evolução das inclinações constam em laudos individualizados, a participação dos condomínios nas decisões e na execução dos projetos de reaprumo é direta. Solo em Santos A inclinação dos prédios tem relação com as características do solo e as técnicas de fundação empregadas entre os anos de 1950 e 1980. Ao g1, o engenheiro Paulo Pimenta explicou que a orla tem uma camada de areia de cerca de 10 metros de profundidade. “Depois, vem uma argila marinha muito mole, que foi fruto da sedimentação de sedimentos marinhos durante os últimos milhares de anos e essa argila é muito mole, ou seja, qualquer peso em cima dela, ela se deforma”, explicou. O solo residual e a rocha ficam abaixo da argila, segundo ele, a aproximadamente 60 metros de profundidade. As construções antigas não chegavam até essas camadas, somente até a areia. Na época, os engenheiros imaginaram que os prédios poderiam descer, mas não imaginavam que poderiam entortar. "E por que eles se inclinam? Porque se você faz dois prédios mais ou menos ao mesmo tempo, um 'puxa' o outro e eles se inclinam um em direção ao outro”, explicou. Infográfico mostra onde estão concentrados os prédios tortos e como é composto o solo na região. Arte/g1 Além disso, as inclinações podem ter outros motivos, como a sequência em que foram erguidos, e como isso influenciou as deformações no solo e os impactos uns sobre os outros. "É muito curioso isso. Sempre que eu passeio pela praia, eu fico olhando e imaginando qual foi a sequência de construção dos prédios de Santos”. Obra milionária Segundo o secretário municipal de Governo de Santos, Fábio Ferraz, a estimativa de orçamento apresentada ao BNDES foi de R$ 7 milhões a R$ 10 milhões por prédio, a partir de uma intervenção feita anos atrás por um condomínio, que custou R$ 1,5 milhão. “Só fazendo uma atualização dos valores, a gente chegaria em R$ 7,5 milhões. Naturalmente, cada prédio tem uma particularidade”, afirmou. Reunião da Acopi sobre os prédios tortos em Santos, SP Arquivo Pessoal/Eliana de Mello Financiamento inédito A modelagem de financiamento enfrenta dificuldades por duas questões: os condomínios serem privados e de habitação. “Como [o reaprumo] é uma questão social e urbana, o BNDES está estudando de que forma ele poderia fazer esse trabalho junto aos condomínios apoiado pelo poder público municipal”, afirmou o prefeito. A principal dificuldade para a modelagem de financiamento está associada ao fato dos condomínios serem privados. O BNDES financia, principalmente, obras de infraestrutura no setor público, mas também empresas privadas que prestam serviços públicos, além de cooperativas e associações com projetos em prol da coletividade. “Não é possível, por exemplo, que o poder público conceda recursos para um empreendimento privado. Evidentemente não é possível. O que é possível? É que eles [prédios] consigam fazer esse financiamento e a gente, de alguma forma como poder público, apoie para que isso se consolide, dada a relevância pública”, disse Fábio Ferraz. Procurado pelo g1 à época, o BNDES informou que aguardava a apresentação formal de projetos pela prefeitura. Segundo o banco, 'o ente público deverá detalhar, entre outros itens, o projeto de engenharia (para obras civis), orçamento, cronograma físico-financeiro e aspectos jurídicos como regularidade fundiária e licenciamento ambiental'. Se não fizer, vai entortar mais? Atualmente, os prédios não correm risco estrutural. Segundo a Prefeitura de Santos, laudos técnicos são emitidos a cada dois anos. No entanto, a inclinação dos edifícios pode ocasionar problemas no futuro. Por isso, o reaprumo é essencial. “Um prédio não foi feito para ficar inclinado. O prédio deve ser feito para ficar sempre no prumo. Então, toda vez ele vai se inclinando, vão aparecendo esforços novos na estrutura para a qual ela não foi projetada. Existe um momento em que a inclinação fica tão grande em que o edifício tem perigo de ruir.”, afirmou o engenheiro Paulo Pimenta. De acordo com ele, todos os prédios que foram estudados ainda têm pelo menos de 10 a 15 anos de margem de segurança. “Dá tempo de se financiar, de juntar dinheiro, fazer poupança, de contratar financiamento e fazer esse estudo todo. Mas, Santos tem que estar ciente que, um dia, um prédio desses vai ficar em situação insegura e aí vai ter que ser interditado e demolido”, disse. VÍDEOS: g1 em 1 minuto Santos